Estranhos que visitaram

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Get over



Me questionei se era um rato morto, comida estragada ou minha mente que fedia. Na verdade, era o apartamento que não recebia a visita do Sol. Decidi que o Sol gosta de mostrar a realidade, ele é chato.  O odor não podia sair da minha mente, não tinha nada nela. Não sintia prazer em quase nada em minha vida, eu tinha vontade de me matar a todo tempo. Não tinha brilho, fui apagada por ele, cara idiota.

Eu podia frequentar bares, me acabar em outros braços, mas eu me torturava. Eu comecei a gostar da dor. Cada dia recebia uma mancha mais escuro em meus olhos, em minha vida. O café me manteve de pé, o cigarro me manteve. O apartamento cheira a chá também, mudo o cardápio, mudo o disco. Carinho eterno pela música, já o outro (Paulo) me ensinou a gostar de música. Pensei que interessante seria eu ligar com uma voz superior e perguntar se ele conhece um novo disco bom. Liguei, desliguei. Liguei, ele atendeu irritado.

Disse que estava tudo uma merda, mas que eu estava ‘’feliz’’. Ele acha que sou muito forte e consigo superar tudo. Na verdade, ele não quer saber. Ele não liga.
- Rita, você tem que parar de ser como você é. Te larguei por isso, era tudo bom, mas você tem vocação pra fazer merda, pra ferrar com tudo. Eu não vou deixar você entrar na minha vida de novo.

- Ok, chego aí em 30 minutos.

Amarrei o cabelo como ele gostava, os fios dourados opacos, não estavam preparados para sentir o vento gélido da boca de Paulo. Um casaco preto, e uma calça jeans. Preparação maior tinha que vir da minha mente. Corri pelas escadas do apartamento, saí pulando entre crianças e meu salto, as portas dos andares eram mais pesadas do que eu imaginava. Era noite, tudo molhado, tudo frio. Eu estava de novo tendo menos vontade de me matar.

-PAULO, PAULO! ABRA AQUI!

- Some, Rita! Rita, saia daqui agora ou eu...

- Tá com medo, você não resiste!

Não demorou muito eu abri a porta do apartamento 1313. Não falei nada, ele ficou de costas andando pelo sala, pronto para me arrancar dali.

- Fiz uma tatuagem, Paulo. Coloquei seu nome no meu ombro.

- Vou ter que mudar meu nome.

- Use o segundo nome. Fuja de mim, mude de identidade, mas eu não sumo da tua mente, Paulo.

- Você é maluca, você não acha que eu mereço ser feliz?

Era a primeira vez que via um homem chorar por mim, senti raiva da minha mãe quando ela fez meu pai chorar. Mas e o que eu poderia sentir de mim naquele momento? Ele ia me matar por dentro, isso não era justo, me poupei por um bom tempo.

- Paulo, você não acha que...

- Foda-se, sua puta!

Acendi um cigarro e agradeci pelo elogio. Eu só não revidei porque eu o amo.

- Rita, você se faz de vítima, mas quem te pegou na cama com outro fui eu! O que você quer de mim? Não basta, tem que bancar a irônica. Você é uma viúva negra, mas me mata aos poucos, você me engana, seu cheiro e um feitiço e eu tenho tentado esquecer você. Não me ligue com desculpas com porras de discos, eu não tenho saco pra nada, de uma vez por todas curta sua vida livre.

 Paulo nem sabia que por ele eu escrevi minhas poesias mais sinceras, que com ele fiz amor de verdade. Eu não presto só porque beijo outras bocas? Ter uma aliança de amor não é o bastante, volto sempre pra ele inteira ou com mais para oferecer.

- Paulo, vamos deitar, querido?

- Você é doente?

Paulo soluçava na minha frente, parecia uma criança quando perde um cachorrinho, quando perde um brinquedo velho. Paulo não sabia que por ele eu mataria, morreria, faria uma vida. Ele é egoísta.

- Deite, em cinco minutos chego com seu chá.

- VAI EMBORA DAQUI!

- Não insista, amor. Amanhã terei que ir.

Segurei- o com uma mão, acariciei sua barba tão bem feita. Ele pediu para que eu apagasse o cigarro. Não tive demora e o fiz.

- Shhhhhhhhh...

Levei-o para cama, ele sabe que não iria deixá-lo nunca, independente de sua resposta. Amei Paulo, enxuguei suas lágrimas. Ele não me fez prometer nada, eu não peço nada a ele. Coisa melhor que amor assim? Observei-o por toda a noite, antes que ele acordasse, saí de mansinho. Fui à cozinha e preparei seu café. Assim que Paulo acordou, propus casamento.


Um comentário:

Priscila Oliveira disse...

Nossa!
Queria ser RITA...
kkkk...
Brincadeirinha!

Amei.

bjos